O que é a apneia do sono
Durante o sono, os músculos da garganta relaxam. Em algumas pessoas, esse relaxamento é suficiente para estreitar ou fechar por completo a via aérea. O ar deixa de passar, o nível de oxigénio no sangue desce e o cérebro reage com um micro-despertar para retomar a respiração.
Este ciclo pode repetir-se cinco, trinta ou mais de sessenta vezes por hora. Na maioria dos casos a pessoa não se lembra de nenhum destes despertares — lembra-se apenas de acordar cansada, todos os dias, sem perceber porquê.
A gravidade é medida pelo índice de apneia-hipopneia (IAH), o número médio de paragens respiratórias por hora de sono. É esse número, obtido num estudo do sono, que define se a apneia é ligeira, moderada ou grave.
Sintomas mais comuns
Os sinais aparecem de noite e de dia. Muitas vezes é quem dorme ao lado que dá o alerta.
- Ronco alto e habitual, por vezes interrompido por silêncios
- Pausas na respiração observadas por outra pessoa
- Despertares com sensação de sufoco ou engasgamento
- Sono agitado e idas frequentes à casa de banho durante a noite
- Boca seca e dor de cabeça ao acordar
- Sonolência excessiva durante o dia, sobretudo em situações monótonas
- Dificuldade de concentração, falhas de memória e irritabilidade
- Diminuição da libido
Causas e fatores de risco
A apneia resulta da combinação entre a anatomia das vias aéreas e fatores que agravam o seu colapso durante o sono. Ter fatores de risco não significa ter apneia — significa que vale a pena investigar.
- Excesso de peso e obesidade, sobretudo com acumulação de gordura no pescoço
- Perímetro do pescoço aumentado
- Idade superior a 50 anos
- Sexo masculino, e mulheres após a menopausa
- Alterações anatómicas: amígdalas grandes, desvio do septo nasal, maxilar ou mandíbula recuados
- Consumo de álcool à noite e sedativos
- Tabagismo e obstrução nasal crónica
- História familiar de apneia do sono
- Hipotiroidismo e outras doenças endócrinas
Porque não deve ficar por tratar
Cada paragem respiratória provoca uma descida de oxigénio e uma ativação do sistema nervoso. Repetido todas as noites durante anos, isto tem consequências mensuráveis: a apneia não tratada está associada a hipertensão arterial de difícil controlo, arritmias, enfarte, acidente vascular cerebral, diabetes tipo 2 e depressão.
Há ainda o risco imediato: a sonolência ao volante. Em Portugal, a apneia do sono não tratada é motivo de restrição à condução, e o tratamento eficaz permite recuperar a aptidão.
Como se diagnostica
O diagnóstico começa numa consulta de medicina do sono, onde revemos sintomas, hábitos, medicação e antecedentes. Questionários de rastreio, como o STOP-Bang, ajudam a estimar o risco — mas não diagnosticam.
A confirmação exige um estudo do sono. Na maioria dos casos pode ser feito em casa, na sua própria cama: um estudo cardiorrespiratório domiciliário regista fluxo de ar, esforço respiratório, oxigénio, frequência cardíaca, posição e ronco durante uma noite. Casos mais complexos podem exigir polissonografia.
O exame é depois lido por um especialista, que calcula o índice de apneia-hipopneia e explica o resultado em consulta. Em média, o percurso do primeiro contacto ao diagnóstico demora cerca de 15 dias.
Opções de tratamento
CPAP
Um pequeno aparelho envia ar sob pressão através de uma máscara, mantendo a via aérea aberta. É o tratamento de primeira linha na apneia moderada a grave e o efeito sente-se, muitas vezes, nas primeiras semanas. Não comercializamos equipamentos: fazemos a prescrição, a adaptação e o acompanhamento, e o aparelho é fornecido por empresas de cuidados respiratórios domiciliários.
Dispositivo de avanço mandibular
Um aparelho oral feito à medida que avança ligeiramente a mandíbula e alarga o espaço da via aérea. É uma alternativa eficaz na apneia ligeira a moderada e em quem não tolera o CPAP.
Terapia posicional
Em algumas pessoas a apneia surge quase só em decúbito dorsal (de barriga para cima). Nestes casos, dispositivos que evitam essa posição podem reduzir significativamente o número de eventos.
Medidas de estilo de vida
Redução de peso, evitar álcool e sedativos à noite, tratar a obstrução nasal e deixar de fumar melhoram a gravidade da apneia e potenciam qualquer outro tratamento.
Cirurgia
Em casos selecionados — amígdalas muito aumentadas, obstrução nasal marcada ou alterações do esqueleto facial — a correção cirúrgica pode ser indicada, isolada ou como complemento.
Quando procurar ajuda
Marque uma avaliação se ressona de forma habitual, se alguém já reparou que faz pausas na respiração, ou se acorda cansado e sente sonolência durante o dia mesmo depois de dormir o número de horas que devia.
A avaliação é ainda mais urgente se tem hipertensão difícil de controlar, arritmias, diabetes, ou se já adormeceu — ou esteve perto de adormecer — a conduzir.
Perguntas frequentes
Não necessariamente. Há quem ressone sem ter apneia. Mas o ronco habitual e alto é o sinal mais frequente de apneia obstrutiva, sobretudo se acompanhado de cansaço diurno ou de pausas respiratórias observadas por outra pessoa. Um estudo do sono esclarece a dúvida.
O CPAP trata a apneia enquanto é usado — não a cura. Em muitos casos mantém-se a longo prazo, mas a necessidade é reavaliada periodicamente: perda de peso significativa, cirurgia ou tratamento de uma obstrução nasal podem alterar o quadro e, nalguns casos, permitir reduzir ou suspender.
Na maioria dos casos, não. O estudo cardiorrespiratório domiciliário é adequado para o diagnóstico de apneia e tem a vantagem de registar o seu sono real, em casa. Reservamos a polissonografia para situações clínicas mais complexas.
Informação educativa revista pela equipa clínica. Não substitui uma consulta médica individual.